A pecuária que sustenta o projeto florestal

27/04/2016 Por Maristela Franco

rvores de teca, com seus fustes retos, de casca enrugada e grandes folhas redondas, formam renques intermináveis, espalhando-se a perder de vista. Sob suas copas, vacas com bezerros ao pé desfrutam da sombra ou se protegem das chuvas torrenciais típicas da região, enquanto pastejam touceiras de capim mombaça. A cena foi registrada por DBO em Redenção, no sudeste do Pará, onde a Floresteca Brasil plantou 19.000 ha dessa espécie exótica, distribuídos por cinco fazendas (Santa Marta, Pau D’Arco, Santa Lúcia, Santa Marina e Arpa), com área total de 50.000 ha.

A empresa, sediada em Indaiatuba, SP, é a maior produtora de teca do País, atuando também no Mato Grosso, onde possui outros 24.000 ha de floresta. Seu foco é o mercado asiático, que paga de U$ 400 a U$ 1.200 pelo m3 de teca, dependendo da qualidade e bitola das toras. Trata-se de uma madeira resistente, leve e maleável, ideal para fabricação de navios, esquadrias, móveis e pisos, mas que demora 20 anos para atingir ponto ideal de corte. Enquanto esse dia não chega, os bois vão garantido lucratividade ao projeto paraense, devido a seu ciclo mais curto e liquidez imediata.

Consórcios silvipastoris estão se tornando comuns no Brasil, justamente porque permitem amortizar os custos de plantio das espécies madeireiras. Porém, o que mais chama a atenção nas fazendas visitadas por DBO no Pará é o fato de a floresta ter levado à intensificação da pecuária, que passou a ocupar papel relevante dentro da companhia fundada pelo paulista Sylvio de Andrade Coutinho Neto, com recursos próprios e de um fundo de investimentos norte-americano. Mesmo tendo perdido pastagens consorciadas, devido ao sombreamento da área pelas árvores, a pecuária continuou evoluindo. Na fazenda Pau D’Arco, por exemplo, o capim desapareceu debaixo de 1.000 ha de floresta, mas, ainda assim, em 2015, foram produzidas 5.330@ em confinamento e 15.592@ em 1.200 ha de pastagens solteiras, destinadas exclusivamente à recria/engorda, com suplementação. 

Desse total de arrobas, cerca de 30% (4.492) vieram de 100 ha rotacionados e adubados, que possibilitam terminar novilhos precoces com 18@ aos 16-18 meses. O projeto segue uma tendência crescente de modernização da agropecuária sul-paraense, estimulada também pela chegada da soja à região. 

Por que vacas de cria?

A Floresteca começou fazendo recria/engorda tradicional, em sistema extensivo, aproveitando as pastagens já existentes nas fazendas adquiridas para montagem do projeto no Pará. O plantio de teca foi iniciado em 2007 e cresceu gradativamente. Quando a floresta começou a ocupar mais áreas, a empresa decidiu semear capim entre as linhas de árvores e mudou seu sistema de produção pecuária. Optou por fazer ciclo completo. Primeiro, porque o bezerro no sudeste do Pará é escasso e caro (ágio de 42%), o que
dificulta a vida dos terminadores. Segundo, porque as pastagens consorciadas com teca foram divididas em piquetes grandes (300 a 600 ha cada), para reduzir custos com cercas e bebedouros, além de facilitar o manejo florestal. Para beber água, o boi teria de caminhar muito, perdendo peso. “A solução foi criar vaca”, explica o agrônomo José Maria Goldschmidt,
titular da consultoria Planagro e responsável pela parte de pecuária da empresa. 

O capim foi semeado a lanço, após leve gradagem do solo. Escolheu-se o mombaça, capim do gênero Panicum, porque ele não tem efeito alelopático sobre a teca, ou seja, não libera enzimas que inibem o crescimento de suas raízes. “A braquiária costuma ter esse efeito, além de infestar a área, prejudicando o crescimento das árvores”, diz o agrônomo, lembrando que a lotação nas pastagens consorciadas é baixa (0,5 UA/por ha), pois o capim cresce menos do que sob plena luz. De 2008 a 2013, as pastagens consorciadas sustentaram o crescimento do rebanho, que chegou a 15.000 cabeças, mas, de três anos para cá, elas desapareceram rapidamente. 

A Fazenda Santa Marta, por exemplo, maior propriedade do grupo no Pará, com 27.000 ha, já tem 85% de seus 13.000 ha agricultáveis plantados com teca. Sob as árvores, de 6-9 anos de idade (as primeiras plantadas pelo grupo), quase já não há capim. Sobraram faixas nas bordas dos talhões e 1.400 ha de pastos permanentes.

O consórcio de boi com teca da empresa, portanto, já nasceu com “prazo de validade”. Os animais entram na pastagem quando as mudas estão com 1,5 ano (antes disso, podem quebrá-las) e saem após seis anos de uso. É preciso ter áreas extras para alojá-los quando as árvores entrecruzam suas copas ou intensificar as pastagens solteiras remanescentes. “Foi o que fizemos. Suspendemos a compra de animais, ajustamos o rebanho às atuais 10.200 cabeças e concentramos toda a recria/engorda na Fazenda Pau D’Arco, onde passamos a produzir milho para silagem destinada ao confinamento, a adubar pastagens e a suplementar os animais.

Essa decisão permitiu liberar área nas outras quatro propriedades para as vacas”, informa Goldschmidt, mais conhecido como Zé Maria. Outra opção seria plantar as árvores em espaçamentos maiores, como fez a Fazenda Bacaeri, em Alta Floresta, MT, que, ao invés do plantio convencional adensado utilizado pela Floresteca (3 x 4 ou 4 x 4 m), optou por manter distâncias de 15 a 20 metros entre linhas e 2,5 a 4 metros entre plantas, para garantir a sobrevivência do capim . “Fizemos alguns testes neste sentido, visando avaliar o impacto de espaçamentos maiores sobre a produção final de madeira (nosso principal objetivo), mas não temos resultados conclusivos porque as árvores ainda não foram cortadas”, explica Zé Maria. Além disso, como a empresa parou de plantar teca no Pará, essa questão deixou de ser relevante. “A área destinada ao gado permanecerá restrita, com oferta esparsa de capim nas florestas: a pecuária terá obrigatoriamente de ser intensificada”, diz o agrônomo. 

Investimento em genéticac

A decisão de “turbinar” a atividade alinhou-se com outra diretriz da Floresteca: produzir carne de qualidade, mesmo que os frigoríficos da região não paguem nada a mais por isso. Quando optou por fazer cria, a companhia adquiriu matrizes de todo tipo, mas logo passou a inseminá-las com touros melhoradores com boas DEPs (diferenças esperadas de progênie) genealógicas para habilidade materna. “Fizemos exames com o marcador genético Clarifide, para confirmar a presença dessa característica no rebanho, e constatamos que 70% dos animais testados tinham perfil genético condizente com as DEPs genealógicas escolhidas”, diz Zé Maria, satisfeito. Como vendeu fêmeas em 2015, a Floresteca tem hoje 3.200 vacas, mas já está adquirindo 1.600 novilhas para recomposição do plantel, que pretende manter estável em 4.000 ou 4.500 ventres.

Todas são submetidas à inseminação por tempo fixo (IATF): a cabeceira das Nelore (25%), com touros da mesma raça, visando à reposição; e as demais, com Angus. O índice de prenhez está em 55,6%, com apenas um protocolo. “Não dá para fazer uma segunda IATF porque não temos currais e piquetes próximos para manejar grande quantidade de lotes ao mesmo tempo. Hoje, trabalhamos com grupos pequenos, de 150 vacas, para não comprometer os resultados. Antes de terminarmos o primeiro protocolo, já teríamos de fazer o segundo nas primeiras vacas inseminadas, e falta espaço para isso. Não dá para manejar o gado nas áreas de teca, porque lá os piquetes são muito grandes”, justifica.

Fonte: DBO 426