CONTA DE BOIADEIRO

05/05/2016 Por Renato Villela

Vale a pena levar a boiada para um confinamento de aluguel? A resposta é sim. Terceirizar a engorda de animais para pecuaristas que possuam unidades confinadoras, ou mesmo para os frigoríficos, prática que ficou conhecida genericamente por boitel, pode ser uma excelente opção de negócio. Mas, para dar lucro ao produtor, o investimento em boitel deve ser feito com muito critério. O pecuarista precisa escolher a modalidade que melhor se enquadre em seu perfil de negócios e submeter o projeto à seguinte lista de verificação, também conhecida como checklist: quantos dias o animal permanecerá no cocho, quanto será gasto com despesas de alimentação e qual o ganho de peso esperado. “Quando me questionam sobre o melhor modelo de engorda terceirizada, respondo: quem é o seu boi?”, diz Fernando Saltão, diretor de confinamentos da JBS-Friboi, da holding J&F. Nessa seara, o produtor precisa fazer o que ele chama de conta de boiadeiro. “Tudo o que envolve o confinamento passa por um ponto central, que é o consumo de alimento dos animais e quanto ele vai custar.” 

No ano passado, foram confinados 4,2 milhões de animais no País, um crescimento de 13% ante 2012 e de 45% nos últimos cinco anos, segundo a consultoria Informa Economics FNP, de São Paulo. A Associação Nacional de Confinadores (Assocon) afirma que, do total abatido atualmente no sistema, a estimativa de animais engordados em boitéis é de quase 50%.  

A demanda tem tudo a ver com as novas fórmulas de engorda terceirizada que estão ganhando espaço no mercado. Para Saltão, essa procura é reflexo do uso mais intensivo das pastagens e de uma pecuária em busca de resultados mais consistentes. “O produtor precisa rentabilizar a sua fazenda”, diz ele. “O confinamento, ao facilitar a terminação do gado, entra como ferramenta estratégica para dar suporte a um sistema mais intensivo de criação.” No ano passado, o JBS confinou 230 mil bois, dos quais 206 mil de forma terceirizada. 

Atualmente, os boitéis oferecem quatro modalidades de parceria aos produtores, cada uma com um tipo de negociação prevista em contrato (veja quadro). Essas modalidades independem do tamanho do rebanho, servem tanto para o pequeno como para o grande fazendeiro. O pecuarista Levy Campanhã, da fazenda Felicidade, em Camapuã, MS, que nesta safra deve confinar 600 bois, fechou contrato com o JBS para engordar três lotes de bois. Os dois primeiros, num total de 188 animais, entraram no confinamento em outubro do ano passado com 367 quilos, equivalentes a 12 arrobas. “Optei pela ‘diária a preço fixo’ porque nesse modelo recebo pelo peso total dos animais”, diz Campanhã. “Como meus bois estavam num pasto ruim, poderiam ganhar bastante peso no confinamento, compensando o valor pago pelo serviço.” Os animais permaneceram 80 dias confinados, ganharam 1,86 quilo por dia e foram para o abate com 516 quilos. Com rendimento de carcaça de 55%, o lucro líquido, por animal, foi de R$ 244. “Se tivesse deixado no pasto, eles ainda estariam por lá”, diz Campanhã. 

Segundo Saltão, a diária a preço fixo é uma boa opção para lotes de animais mais leves, mas com boa genética, ou seja, que tenham potencial de ganho de peso o suficiente para superar o valor da diária. “O produtor tem de confiar bastante nos seus animais, pois o risco é maior”, diz. No caso de lotes mais pesados, é mais interessante apostar num sistema de parceria, no qual o pecuarista recebe como pagamento o referente ao peso de entrada do animal, de acordo com o valor da arroba no dia do abate. “Esse é um modelo mais conservador, sem maiores riscos”, diz Saltão. Foi a opção de Campanhã para o terceiro lote de bois. “O ganho de peso médio diário dos animais ficaria muito próximo ao custo da diária do confinamento e com isso eu teria uma margem de lucro apertada”, diz o produtor. “Achei que seria mais seguro optar pela parceria.”

Essa foi a opção, também, da Agropecuária CFM, de São José do Rio Preto (SP), controlada pelo grupo inglês Vestey, um dos maiores vendedores de touros do País e dono de um rebanho de 17 mil fêmeas nelore. Com a parceria, o objetivo é ter animais de melhor qualidade de carcaça e com potencial para ganhar bônus sobre o valor da cotação da arroba. O bônus pago ao produtor funciona como uma ferramenta de incentivo previsto em projetos de carne de qualidade, entre confinadores e redes varejistas, associações de raça ou produtores, além da possibilidade de ganho extra com a exportação de carne para o mercado europeu. No ano passado, a CFM engordou quatro mil bois em sistema terceirizado. “Queríamos ter acesso à bonificação pelo ‘boi Europa’”, diz Luís Adriano Teixeira, coordenador de pecuária da CFM. “Por isso, escolhemos um confinamento habilitado a exportar para a União Europeia.” 

A empresa, que já possui um confinamento em Magda (SP), até cogitou a possibilidade de construir mais uma unidade em uma de suas fazendas de Mato Grosso do Sul, mas engavetou o projeto. “Desistimos porque, na ponta do lápis, as parcerias são mais interessantes”, diz Teixeira. Atualmente, o custo para construir uma unidade confinadora, com boa tecnologia e equipamentos de ponta, não sai por menos de R$ 500 por animal. No caso da CFM, seria necessário desembolsar R$ 2 milhões. “Vamos repetir a parceria neste ano porque é melhor engordar bois fora da fazenda.” 

Em contrapartida, o pecuarista Marcelo Marcondes, da fazenda Santa Helena, em Britânia (GO), que todos os anos enviava seus bois para engordar no sistema de parceria, no ano passado mudou sua estratégia e decidiu apostar no modelo de “arroba produzida com valor fixo”. “Gostei mais porque o custo para terminar os bois ficou menor e consegui um preço bom no momento da venda”, diz Marcondes, que faz cria, recria e engorda. Como o próprio nome sugere, essa modalidade estabelece um valor fixo para a arroba produzida. O ganho financeiro é calculado pela diferença do peso entre a entrada e a saída dos animais do confinamento, considerando-se um rendimento de carcaça de 50%. “Para fazer o cálculo, inserimos o custo da dieta em uma planilha, juntamente com o número de dias em que os animais ficarão no cocho, de acordo com o peso de abate estimado”, diz Fábio Macedo Silva Ribeiro, gerente da unidade de confinamento da JBS de Aruanã (GO). 

Na safra passada, Marcondes colocou 1,1 mil bois no confinamento e obteve um lucro de R$ 16 por arroba ou R$ 336 por animal. “O custo da arroba foi de R$ 89 e vendi ao frigorífico por R$ 105”, diz Marcondes. “Conhecer o custo de produção dá mais segurança ao produtor porque ele pode, por exemplo, travar o preço de venda no mercado futuro e garantir sua margem de lucro”, diz Ribeiro. No entanto, a modalidade requer atenção a dois detalhes: o custo dos insumos e, principalmente, o tempo de permanência dos animais no cocho. Quanto menos tempo o lote permanecer confinado, menor será o custo da arroba produzida. 

Para Saltão, a engorda em boitéis pode trazer uma série de ganhos que não se contabilizam apenas com a venda dos animais para o frigorífico. Ao repassar a responsabilidade para terceiros, o produtor se livra de todo um processo operacional delicado, que envolve desde a compra de insumos até leituras diárias do que ocorre no cocho. Com isso, sobra uma brecha de tempo para olhar melhor para a própria fazenda. “O produtor consegue projetar a próxima safra com mais calma, aproveitar uma chuva para adubar o pasto, remanejar seus funcionários para arrumar as cercas, ou mesmo planejar a reposição de animais no rebanho”, diz Saltão. “Com mais tempo disponível, dá até para ir atrás de um garrote mais barato, aumentando a possibilidade de lucro da fazenda.” 

Fonte: Dinheiro Rural/ Foto: Claudio Gatti