Plantação de boi

29/03/2016 Por Natalia Escobar

Professor titular da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) desde 1989, Moacyr Corsi é especializado em fisiologia de plantas forrageiras e produção animal em pastagens. O especialista possui dois pós-doutorados, nas universidades de West Virginia University e Massey University, ambas nos Estados Unidos. Graduado em Engenharia Agronômica, o professor conta com 50 anos de experiência no ramo. 
Para ele, a adubação das pastagens é um dos últimos elos da corrente usada para alçar a produtividade para patamares elevados. Na entrevista para Revista Pecuária Brasil, o professor fala sobre manejo, correção da fertilidade do solo, reforma e recuperação de pastagens, escolha das sementes e espécies para o sistema de produção e evolução da produtividade em sistemas de pastagens.

Pecuária Brasil . O pasto já é considerado pelos produtores como uma cultura agrícola? 
Moacyr Corsi . Ainda existe preconceito com relação ao manejo, reforma e adubação de pastagens. Os produtores precisam começar a entender que não adianta uma lotação alta se o boi não ganha peso. O pecuarista passaria a entender a pastagem como cultura agrícola se mensurasse as perdas de produtividade quando executa erradamente uma prática pecuária no tempo ou na forma. Ele não sabe que pode perder cerca de 24 kg por cabeça (ou 0,8 arrobas) por mês quando subutiliza os pastos no período do inicio das chuvas, ou, ainda, que pode reduzir sua produtividade entre 20 e 30% quando deixa de controlar cigarrinhas de pastagens, ou que perde outro tanto por não considerar os prejuízos provocados pelas lagartas, plantas invasoras, manejo incorreto dos animais, entre tantas outras falhas que podem existir no processo. Em resumo: sem a coleta e interpretação de resultados, o pecuarista administra sua atividade por intuição, quando deveria fazê-lo através de metas e previsões. Com as pastagens não é diferente.

PB . Como analisar qual o processo de adubação é melhor para cada propriedade?
MC . Propriedades têm suas peculiaridades e, portanto, merecem analises próprias para que a adubação seja bem sucedida. Aduba-se as pastagens para elevar a produtividade de forragem, entretanto, é frequente observarmos elevadas perdas devido ao mal manejo das pastagens. Quando isso ocorre, não devemos recomendar a adubação, mas orientar o pecuarista a reduzir as perdas devido à falta de manejo. Como essa situação é muito comum, dizemos que a adubação das pastagens é um dos últimos elos da corrente usada para alçar a produtividade para patamares elevados. A análise da melhor conservação e adubação da pastagem varia de acordo com cada região, clima e situação da fazenda. 

PB . Escolhido o melhor caminho, como começar o processo? 
MC . Antes de adubar é necessário ajustar a infraestrutura das fazendas quanto à disponibilidade de espaço de cochos para fornecimento de sal mineral e/ou de suplementos proteicos e/ou outros suplementos como energéticos, volumosos, entre outros. Da mesma forma, devemos ter atenção para o acesso dos animais ao cocho de água, à localização das aguadas, etc. Esses "detalhes" fazem a diferença entre o sucesso e a frustração nas adubações das pastagens. 

PB . Quanto tempo uma pastagem em boas condições deve durar?
MC . Se o manejo for bem feito, considerando o controle de pragas, de doenças, de plantas invasoras e da fertilidade do solo, a pastagem terá longevidade eterna, se não houver adversidades climáticas extremas. A cada ciclo de pastejo a pastagem se rejuvenesce através do perfilhamento. A ESALQ tem pastagens de capim elefante formadas em meados da década de 1960 com produtividades melhores que as iniciais, quando foram implantadas, isto é, há quase 50 anos. 

PB . : Qual a melhor época do ano para realizar a reforma do pasto?
MC . Se a reforma for feita em áreas que alagam, a melhor época seria no período seco. Essa prática visa o estabelecimento das plantas forrageiras antes do encharcamento. Em áreas inclinadas, que não permitem a adequada conservação do solo, a melhor época seria no final do período chuvoso, o que evita os perigos das erosões. Normalmente, as semeaduras são realizadas nos meses chuvosos, respeitando-se as janelas de trabalho de cada tipo de solo e região.

PB . Qual é, em números, o incremento que o pecuarista pode ter na rentabilidade de sua atividade, com o correto manejo de pastagens?
MC . Poderia atingir rentabilidades comparadas à da cultura da soja, como se tem comprovado em diversas empresas que buscaram tecnologias para sair da média nacional de 5@ por hectare/ano para cerca de 45 ou 50 @/há/ano. Nesse caso, o equivalente de margem líquida é semelhante ao proporcionados pela soja ou por outras alternativas de uso do solo.

PB . Em termos de produtividade de leite e carne, existe uma variedade de espécie forrageira ideal em um sistema de produção em pasto? Como deve ser escolhida?
MC . Basicamente, a escolha da espécie forrageira deve ser no sentido de responder elevados níveis de adubações, se o fator limitante de produtividade for a extensão de área. Se o fator limitante for a habilidade de manejo, a preferência seria por espécies forrageiras que facilitassem o manejo. Já se a condição limitante for edáfica como drenagem ou outra limitação, a escolha da espécie forrageira visa minimizar esse problema. 
Quando o manejo é correto, as diferenças quanto a qualidade entre gramíneas  são pequenas, afetando pouco a decisão de opção pela espécie forrageira. Já o ataque de pragas tem refletido na escolha das espécies forrageiras, de acordo com as características de cada região. 

 

Fonte: Pecuária Brasil/ Foto: Scot Consultoria