Qual a dinâmica dos insetos em sistemas ILPF?

20/10/2016

Já imaginou como seria ter menos dor de cabeça com as cigarrinhas-das-pastagens? Saber que a população de percevejos está controlada na lavoura de soja? Ou constatar que o eucalipto não teve desfolha? Essas são algumas das vantagens que o sistema de integração lavoura-pecuária-floresta pode proporcionar para o produtor.

A informação tem como base estudos realizados pelo doutor em entomologia e pesquisador da Embrapa Rafael Pitta, que avaliou experimentos instalados na unidade de Sinop, MT, de 2011 para cá. O comportamento dos insetos, segundo ele, foi acompanhado em áreas de monocultura, integração pecuária-floresta e ILPF. Em todos os casos, se fez uso do manejo integrado de pragas (MIP).

“Nesse ensaio com sistemas integrados e solteiros quisemos avaliar basicamente três parâmetros: quantidade de insetos, nível de dano e necessidade de controle”, diz Pitta. O que foi possível com a análise do componente florestal, pastagem e lavoura, sempre comparando os sistemas integrados com o padrão de monocultivo. Abaixo, os resultados obtidos em 2015:

Ganhos na floresta - No último ano, enquanto nos sistemas integrados não houve necessidade de fazer o controle de lagartas, no monocultivo, mesmo com a prática do MIP, uma infestação exigiu três pulverizações de químicos para ser controlada. “A desfolha chegou a 50%, e isso é um problema porque a queda das folhas diminui a capacidade fotossintética da planta e, consequentemente, sua produtividade”, afirma o pesquisador.

A hipótese levantada por Pitta é de que a luminosidade tenha interferido no comportamento dos insetos. “No eucalipto em monocultivo as pragas não se estabeleciam nas bordas do piquete, mas no meio da parcela”, diz. Como nos sistemas integrados o espaçamento entre linhas é maior – seja por conta da pastagem ou da lavoura que precisam receber iluminação –, a área de sombra sobre as árvores também foi menor. “É como se nos sistemas integrados a parcela inteira funcionasse como a borda do monocultivo, já que você tem radiação entrando em todas as direções. Na escassez de sombra, o ambiente ficou menos propício para ação das lagartas”, explica.

Menos cigarrinhas na pecuária - Pesadelo dos pecuaristas quando começam as chuvas, as cigarrinhas-das-pastagens também deram trégua no sistema ILPF e não demandaram qualquer pulverização. De acordo com Pitta, isso acontece porque a rotação de culturas quebra o ciclo da praga.

“Imagine que você tem a pastagem, que foi plantada em consórcio com o milho, estabelecida a partir de fevereiro. Nessa época, começam a diminuir as chuvas e os ovos que poderiam estar no pasto entram em dormência. Com os animais ocupando a área no período mais seco, as pragas não vão se estabelecer e, na sequência, quando as chuvas retornam, já vem o plantio de soja”, detalha Pitta. Como a leguminosa não é hospedeira da cigarrinha, seu ciclo é interrompido.

Na área experimental da Embrapa Agrossilvipastoril, o pesquisador conta que foi plantado o capim Marandu que, apesar de ser resistente às cigarrinhas-das-pastagens, não é resistente à Mahanarva fimbriolata. A espécie, mais agressiva, suga a seiva das raízes do capim. De qualquer forma, não houve necessidade de controle nem dela nem das demais cigarrinhas no sistema agrossilvipastoril. “Já no caso do sistema de integração pecuária-floresta e na monocultura tivemos infestação acima de 25 ninfas por metro quadrado, o que exigiu recorrer ao controle biológico no início do período chuvoso”, afirma o pesquisador. O controle biológico das cigarrinhas pode ser feito com o fungo Metarhizium anisopliae, que age parasitando a ninfa do inseto.

Populações equilibradas na lavoura - No caso da agricultura, a quantidade de insetos praga não variou significativamente entre as áreas de monocultura e sistema integrado, sendo a necessidade de controle e o número de pulverizações bastante semelhantes. Apesar disso, a biodiversidade foi maior no sistema de ILPF. “Quando você vê a comunidade de inimigos naturais observa que ela é maior no sistema integrado quando comparada ao monocultivo. Então, se ocorresse um surto de pragas, teoricamente, no sistema ILPF, isso seria menos problemático”, diz Pitta.

Segundo ele, não houve altas infestações na área por conta da aplicação do manejo integrado de pragas, que restringiu o número de aplicações de químicos no experimento, para uma contra lagartas e outra contra percevejos. “No Estado de Mato Grosso, a média fica entre quatro ou cinco só para lagartas e mais duas ou três para o percevejo”, afirma o pesquisador.

O cenário é diferente do que se observa nas pastagens porque as pragas da lavoura são polífagas. “Elas se alimentam de várias espécies de plantas. Então, quando a soja e o milho saem do sistema, os insetos buscam outras fontes de alimento, que podem ser até as plantas daninhas”.

Fonte: DBO/ Foto: Embrapa